Sob as ruas há 2.500 anos de cidade. Do núcleo islâmico junto à Praça da República, ao longo das muralhas fenícias e mouras, pela colina do castelo — até ao bairro almóada sob a pousada. Baseado em temas do guia histórico oficial do Município de Tavira.
Capítulo 1
A Cidade Debaixo da Praça
A praça principal de Tavira parece completamente moderna, mas assenta na costura entre a vila muralhada moura e o rio. Perto daqui erguia-se uma porta de arco em ferradura, e a torre octogonal do Mar guardou a travessia até à sua demolição em 1883. Depois da reconquista do século XIII, a praça tornou-se a Praça da Ribeira — o mercado ribeirinho onde se vendia peixe, fruta e, durante séculos, pessoas escravizadas.
Rebatizada a cada viragem da política portuguesa, tornou-se Praça da República em 1910. Os arqueólogos continuam a documentar achados aqui em cada renovação — a primeira camada de uma cidade feita de camadas.
- 90 m
Capítulo 2
Uma Capela Encostada à Muralha
Construída em 1758, três anos depois do grande terramoto de Lisboa, esta pequena capela barroca foi erguida contra a antiga muralha do castelo por uma irmandade de famílias locais. Sobre a porta, um frontão curvo e um óculo oval emolduram um coração em chamas trespassado por um punhal — o emblema de Nossa Senhora da Piedade. Lá dentro, um retábulo rococó dourado brilha na nave despojada.
A capela guarda também uma discreta lição de arqueologia: durante uma renovação nos anos oitenta, uma lápide sepulcral que jazia diante do altar foi removida e perdeu-se. A história desaparece tanto nos pequenos gestos como nas grandes catástrofes.
- 110 m
Capítulo 3
A Escavação Que Reescreveu Tavira
Entre 1998 e 2004, escavações sistemáticas na colina de Santa Maria reescreveram a história antiga de Tavira. Sob a vila medieval, os arqueólogos expuseram um povoado fenício do século VIII a.C.: muralhas com até 9,5 metros de espessura, casas de pedra e adobe, oficinas de metalurgia e cerâmica que mistura estilos locais e importados.
Os achados são notavelmente específicos — um raro grafito em escrita fenícia, um bétilo sagrado, até uma casca de ovo de avestruz vinda do Norte de África. Os estudos de sedimentos explicam o final: no século V a.C., o porto assoreou e a povoação silenciou.
- 70 m
Capítulo 4
Poços de Baal, Pavimentos de Vidro
O Palácio da Galeria é o museu municipal de Tavira — e a sua própria melhor peça. As escavações sob o átrio revelaram poços rituais abertos por colonos fenícios no século VII a.C., dedicados, crê-se, a Baal, o deus das tempestades dos marinheiros. Painéis de vidro no pavimento permitem hoje olhar diretamente para dentro deles.
O edifício por cima é um palimpsesto: portais góticos de uma casa nobre medieval, uma galeria renascentista de arcos do século XVI que deu nome ao palácio e uma remodelação barroca de cerca de 1745, de Diogo Tavares de Ataíde. Depois de vidas como tribunal, escola e clube social, reabriu como museu em 2001.
- 80 m
Capítulo 5
Ler as Ruínas
O castelo diz tanto aos arqueólogos pela ausência como pela presença: nunca aqui se encontrou uma fortaleza pré-islâmica, e as evidências mostram que a construção substancial só começou no século XI, sob domínio mouro. Os almóadas ergueram muralhas de taipa e a torre albarrã octogonal que ainda está de pé.
A ruína tem a sua própria vida póstuma. Depois do terramoto de 1755, as pedras caídas foram levadas para os edifícios da vila e, no século XIX, o recinto serviu de cemitério. Os conservadores modernos optaram por estabilizar em vez de reconstruir — deixando o próprio dano legível.
- 150 m
Capítulo 6
História Sob Vidro
O passeio termina debaixo de um hotel. A Pousada Convento Tavira ocupa o Convento de Nossa Senhora da Graça, fundado em 1569 pelo rei D. Sebastião num terreno que abrigara a judiaria da vila até à expulsão de 1497. A partir de 1837, o convento serviu de quartel do exército durante mais de 150 anos.
Quando o edifício foi restaurado como pousada histórica, aberta em 2006, os arqueólogos descobriram por baixo um bairro mouro do século XII, com artefactos que recuam até ao século VII a.C. As casas almóadas jazem agora sob vidro, no bar do hotel — as camadas de Tavira, finalmente visíveis.