Tavira
Pousada Convento Tavira
Convento agostinho de 1542 no lugar da sinagoga, quartel a partir de 1839, pousada desde 2006.

Períodos
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Horário
Acesso limitado Não há horário fixo. O local abre apenas para celebrações, exposições ou eventos – informe-se localmente antes de contar com a entrada.
Introdução
O hotel na colina junto ao castelo foi durante quase trezentos anos um convento de agostinhos descalços, e antes disso ficava aqui a sinagoga de Tavira. Os frades receberam a judiaria abandonada em 1542 e fizeram da sinagoga igreja; o convento propriamente dito só arrancou em 1568-69. A fachada com as duas torres é do século XVIII e é a maior obra barroca da cidade. A partir de 1839 o edifício foi quartel, e em 2006 abriu como a primeira pousada histórica do Algarve. Durante as obras de adaptação, os arqueólogos do município encontraram um bairro de habitação mourisco de cerca do ano 1200 e três sepulturas de urna da Idade do Ferro. Parte do bairro está exposta junto ao bar, para que se veja o que os frades construíram por cima.
Destaques históricos
A sinagoga que se tornou igreja
No século XV ficavam aqui, dentro das muralhas, a sinagoga e a judiaria de Tavira. Em 1497 D. Manuel mandou converter as sinagogas, e o bairro ficou vazio até os agostinhos descalços o receberem em 1542. Fr. Pedro de Vila Viçosa instalou-se junto a um poço que ainda existe dentro da cerca do convento, e "da esnoga fez igreja". O convento propriamente dito só arrancou em 1568-69, porque não havia acordo sobre o sítio. D. Sebastião deu 200 cruzados em 1573, e em 1598, segundo o bispo, o convento ainda "se vai fazendo".
O prior que foi queimado
O nome mais conhecido do convento é anterior à construção. Fr. Valentim da Luz chegou a Tavira em 1558 e tornou-se prior em 1560. Em maio de 1562 foi queimado num auto de fé em Lisboa; um relato posterior diz que a sentença foi por heresia luterana. Nessa altura ainda não estava assente uma pedra do convento que se tem à frente.
Claustro e fachada de torres
A igreja é de nave única com capela-mor em estilo chão, uma das primeiras do Algarve. O claustro é quadrado, renascentista, com arcos de volta perfeita sobre colunas toscanas. Em meados do século XVIII estava em decadência, e os frades reconstruíram por fases: em 1749 o claustro, que recebeu piso térreo abobadado e nova escadaria monumental; em 1758-78 novo dormitório e portaria. O dormitório é a fachada que hoje se vê, duas torres a ladear um corpo central mais baixo e grandes janelas com molduras lavradas. O desenho veio de Lisboa, e a obra é associada aos mestres Diogo Tavares de Ataíde e Bento Correa.
Soldados, depois arqueólogos
As ordens religiosas foram extintas em 1834. Em 1837 ou 1839 instalou-se o Batalhão de Caçadores n.º 5, o edifício passou a chamar-se Quartel da Graça, e a igreja virou cavalariça. A partir de 1904 o convento foi depósito e a igreja garagem. A Câmara comprou o edifício nos anos 1990 e cedeu a exploração à ENATUR por 50 anos. As arqueólogas do município Jaquelina Covaneiro e Sandra Cavaco escavaram aqui em 2002-06: cerca de 35.000 fragmentos, um bairro de habitação almóada de cerca do ano 1200 e três sepulturas de urna do século VII a.C. A pousada abriu a 24 de junho de 2006 com 36 quartos, alguns nas antigas celas dos frades.
Na prática
O Bairro Almóada fica junto ao bar do hotel e pode ser visitado gratuitamente mediante marcação; a exposição mostra partes de duas casas e cerâmica importada dos séculos XIV a XVI. No claustro, procure o cunho quinhentista do piso térreo, que a reconstrução de 1749 deixou ficar, e o portal da hospedaria com as armas da ordem no tímpano, a marca de Diogo Tavares.
Cronologia e contexto
Cronologia
- Século VII a.C. – Três sepulturas de incineração em urna, interpretadas como fenícias.
- C. 1200 Bairro de habitação almóada na colina.
- 1497 D. Manuel manda converter as sinagogas; a judiaria é abandonada.
- 1542 Fr. Pedro de Vila Viçosa funda o convento na judiaria vazia; a sinagoga torna-se igreja.
- 1562 O prior Valentim da Luz é queimado num auto de fé em Lisboa.
- 1568-69 Começam as obras; D. Sebastião dá 200 cruzados em 1573.
- 1598 O bispo comunica ao papa que o convento ainda está em construção.
- 1749 O claustro é reconstruído; nova escadaria monumental.
- 1758-78 Novo dormitório e portaria; a fachada de torres.
- 1834 Extinção das ordens religiosas.
- 1837/1839 O Batalhão de Caçadores n.º 5 instala-se; Quartel da Graça.
- Anos 1990 A Câmara compra o edifício ao Estado.
- 2002-06 Escavações e adaptação a pousada; abertura a 24 de junho de 2006.
- 2012 Monumento de Interesse Público.
Porque é que o convento está aqui
Os frades não escolheram o sítio. Receberam-no. A judiaria dentro das muralhas ficou vazia depois de 1497, e uma sinagoga abandonada era uma igreja que não era preciso construir. A ordem era jovem em Portugal depois da reforma de 1535 e crescia, e construía-se onde havia espaço: na colina junto ao castelo, lado a lado com Santa Maria do Castelo e Santiago, com a muralha da cidade como cerca do próprio convento. O facto de os frades terem discordado sobre o sítio durante mais de vinte anos antes de abrirem os alicerces mostra que a escolha não era óbvia.
O que temos debaixo dos pés
Quando os frades construíram, aplanaram o que lá estava antes: o bairro almóada e a judiaria foram aterrados e nivelados. Por isso as camadas mais antigas do sítio estão debaixo do chão e não nas paredes. Acima do solo veem-se três períodos: a igreja e o claustro do século XVI, a fachada e a escadaria do século XVIII, e o hotel do século XXI. Junto ao bar vê-se o que os frades taparam. É uma bela ironia que o convento tenha sido preservado como quartel, e que os seus melhores achados tenham sido feitos porque ia ser hotel.