Planta da moagem da Caiado & C.ª na Rua Jacques Pessoa, Tavira, 1935 — alçado, cortes e diagrama das máquinas. Arquivo Distrital de Faro, 5.ª Circunscrição Industrial (PT/ADFAR/ACD/CI5/004-018/117). Reproduzido de Faísca 2024.
Planta da moagem da Caiado & C.ª na Rua Jacques Pessoa, Tavira, 1935 — alçado, cortes e diagrama das máquinas. Arquivo Distrital de Faro, 5.ª Circunscrição Industrial (PT/ADFAR/ACD/CI5/004-018/117). Reproduzido de Faísca 2024.

Farinha, pão e máquinas — a Tavira industrial

Por Flemming Berthelsen5 capítulos50 min

Tavira é uma cidade de igrejas — mas durante oitenta e cinco anos duas fábricas moeram a farinha da cidade, atrás do muro de um convento e de uma fachada à beira-rio. Um passeio curto pelas duas pontes, até à pequena moagem que se tornou hotel e à grande que se tornou habitação: a história de porque Tavira nunca chegou a ser uma cidade industrial, e do que as poucas fábricas deixaram. Adaptação de Flemming Berthelsen, baseada na investigação de Carlos Manuel Faísca.

Capítulo 1

A cidade que quase não se industrializou

População industrial por km² no Algarve e no Baixo Alentejo, 1930 — Tavira está na média algarvia. GIRÃO, A. de Aristides, Atlas de Portugal, Coimbra, 1941. Reproduzido de Faísca 2024.
População industrial por km² no Algarve e no Baixo Alentejo, 1930 — Tavira está na média algarvia. GIRÃO, A. de Aristides, Atlas de Portugal, Coimbra, 1941. Reproduzido de Faísca 2024.

Torres de igrejas, fachadas conventuais, azulejos. Tavira é tão rica em património religioso e senhorial que essa riqueza acabou por ofuscar um outro tipo de património. O das fábricas, dos mercados, do caminho-de-ferro e das habitações operárias. Este passeio procura a outra Tavira, a cidade que nunca chegou a ser industrial, e as poucas fábricas que vieram mesmo assim.

Portugal industrializou-se tarde e devagar. Os primeiros centros industriais cresceram onde estavam as matérias-primas ou os consumidores, como a Covilhã dos lanifícios, Silves da cortiça e as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Tavira não era nada disso. Mas a cidade não estava desprovida de indústria. Quatro fábricas de conservas de peixe, uma fábrica de gelo, uma fábrica de pimentão, serrações, uma ferraria, uma serralharia mecânica e uma tipografia marcaram as ruas, e em 1930 a população industrial do concelho estava exatamente na média algarvia. Nem à frente, nem atrás.

O motor desta história é algo tão terreno como o cereal. O Algarve nunca conseguiu alimentar-se a si próprio. Já na década de 1820 a alfândega registava a importação de trigo e milho, e ao longo de todo o século XIX Tavira comprou cereais alentejanos. As compras de 1849 e de 1903 ainda constam das fontes. Nos campos, o trigo dominou até meados do século XX, quando o milho tomou a dianteira com as novas culturas de regadio. O centeio quase desapareceu, a par do despovoamento da freguesia serrana de Cachopo, onde se concentravam as suas searas. Mas a colheita nunca chegava. O cereal tinha de vir de fora, sobretudo do Baixo Alentejo, e de ser moído aqui.

Duas fábricas encarregaram-se dessa tarefa. Uma pequena, à beira-rio, a poucas centenas de metros daqui, e uma grande, num convento extinto no outro extremo da cidade. Este passeio visita as duas e atravessa o rio duas vezes, ida pela ponte antiga e regresso pela nova.

Praça da República

Capítulo 2

A ponte, a rua e a pequena moagem

Planta da moagem da Caiado & C.ª na Rua Jacques Pessoa, 1935 — alçado, cortes e diagrama das máquinas. Arquivo Distrital de Faro, 5.ª Circunscrição Industrial (PT/ADFAR/ACD/CI5/004-018/117). Reproduzido de Faísca 2024.
Planta da moagem da Caiado & C.ª na Rua Jacques Pessoa, 1935 — alçado, cortes e diagrama das máquinas. Arquivo Distrital de Faro, 5.ª Circunscrição Industrial (PT/ADFAR/ACD/CI5/004-018/117). Reproduzido de Faísca 2024.

A Ponte Romana é a costura desta história. Foi por aqui que o cereal entrou na cidade, e é por aqui que atravessa agora para a margem esquerda do Gilão.

A rua que se abre ao fundo da ponte tem a sua própria história. Chamava-se Rua Borda d'Água de Aguiar até que a República, a 7 de novembro de 1910, a rebatizou Rua Jacques Pessoa. Assim se manteve durante 75 anos. Entre o final de 1985 e o início de 1987, o troço para lá do Largo da Caracolinha retomou a antiga designação. Quando as fontes deste capítulo dizem Rua Jacques Pessoa, falam da atual Rua Borda d'Água de Aguiar.

Uns passos por essa rua abaixo, no número 34, ficava a pequena moagem. A 15 de julho de 1935, a firma Caiado & C.ª requereu licença para moer farinha aqui. Era gente da cortiça, que mantinha em Faro uma pequena fábrica de rolhas e pranchas com destino à Alemanha. A licença tinha sido originalmente atribuída à moagem da firma em Sabóia, no concelho de Odemira, mas o ministério autorizou a transferência. O argumento decisivo foi a maior dimensão do mercado tavirense, sobretudo a Serra de Tavira, então bastante povoada e considerada um importante centro produtor cerealífero.

O equipamento era modesto e deliberadamente antigo. Dois casais de mós, a mesma tecnologia dos moinhos de vento e das azenhas, máquinas de limpeza do grão e um motor "National" de 35 cavalos. Cinco trabalhadores no início, sete pouco depois, e a laboração em marcha por volta de 1936. A moagem produzia farinha em rama, a farinha grosseira de mó de pedra para o pão rural, mais barato. A farinha branca do pão urbano vinha da grande concorrente, na outra margem.

Em 1939, a Caiado & C.ª vendeu todo o ativo à Araújo Ribeiro & Dias, Lda. Em 1942, os novos proprietários compraram uma moagem de milho e centeio que laborava em Lagos e trouxeram a maquinaria para cá. As autoridades autorizaram, porque o milho e o centeio do concelho estavam deficientemente aproveitados. A lei exigia a separação física da moagem de milho e da de trigo, e assim ficaram dois edifícios e uma só firma. No seu auge, a fábrica empregava 14 homens. As mós podiam transformar sete toneladas de cereal por turno de oito horas, os moinhos de martelos 15 toneladas, e misturavam-se rações de cevada e alfarroba para o gado. Vieram ainda fornos de pão e uma oficina de serralharia.

Os proprietários mudaram de novo, em 1951 e em 1959, e a moagem continuou a laborar, mesmo depois de a grande concorrente fechar, em 1968. Só em 1975 as máquinas pararam. Em julho desse ano, o processo foi encerrado com a informação de que toda a maquinaria fora vendida a um morador de Portimão. Em 1986, o edifício principal abriu como Pensão Princesa do Gilão, hoje hotel com o mesmo nome, e em 2014 o armazém anexo foi demolido para estacionamento. Vai passar pelo edifício daqui a pouco, a caminho da ponte nova.

Ponte Antiga (Ponte Romana)

Capítulo 3

O que uma cidade recorda

O anúncio de J.A. Pacheco no jornal local: serralharia, moagem e massas, padaria, secção de automóveis e garagem para 100 viaturas. O Povo Algarvio. Reproduzido de Faísca 2024.
O anúncio de J.A. Pacheco no jornal local: serralharia, moagem e massas, padaria, secção de automóveis e garagem para 100 viaturas. O Povo Algarvio. Reproduzido de Faísca 2024.

Está de volta à margem direita, diante do antigo mercado à beira-rio. Detenha-se aqui um momento, não apenas pelo edifício, mas pela categoria. Mercados, caminho-de-ferro, fábricas, habitações operárias. O património do quotidiano.

A riqueza de Tavira em igrejas, conventos e palácios, na sua maioria classificados como Monumento Nacional ou Imóvel de Interesse Público, tem um reverso. Desviou as atenções de tudo o resto. É essa a tese do historiador Carlos Faísca, e é aqui que ela se cumpre. Não é por acaso que uma cidade recorda o que recorda. A moagem que acabou de ver tornou-se hotel em 1986. A história do próprio hotel menciona a fábrica, mas, no interior, a alusão é reduzida. O conselho internacional do património industrial, o TICCIH, recomenda precisamente a reutilização dos edifícios industriais, desde que a antiga atividade continue a ser contada. A reutilização salva as paredes. A memória precisa de quem a carregue.

Quanta cidade havia na Tavira industrial lê-se num anúncio do jornal local O Povo Algarvio. J.A. Pacheco, o homem que era dono da grande moagem para onde nos dirigimos, anunciava uma serralharia mecânica, fábrica de moagem e de massas, padaria, secção de automóveis e uma garagem de recolha na Bela Fria com capacidade para 100 viaturas, "a mais ampla da Província". Tudo em Tavira, tudo na linguagem dos anos trinta. Só nesta cidade, o grupo empregava cerca de 80 pessoas.

O mercado aqui ao lado é, ele próprio, um exemplo da categoria, e a prova de que a reutilização funciona. Sobreviveu porque a cidade lhe encontrou novos usos. Siga agora a margem do rio para sudeste, em direção ao convento e à grande moagem.

Mercado da Ribeira

Capítulo 4

A grande moagem do convento

A fábrica das Bernardas em planta, propriedade de J.A. Pacheco, primeira metade do século XX — pátio, forja, fábrica de massas e casas dos operários nomeados à mão. Arquivo Distrital de Faro, 5.ª Circunscrição Industrial (PT/ADFAR/ACD/CI5/004-018/60). Reproduzido de Faísca 2024.
A fábrica das Bernardas em planta, propriedade de J.A. Pacheco, primeira metade do século XX — pátio, forja, fábrica de massas e casas dos operários nomeados à mão. Arquivo Distrital de Faro, 5.ª Circunscrição Industrial (PT/ADFAR/ACD/CI5/004-018/60). Reproduzido de Faísca 2024.

O convento à sua frente albergou durante 78 anos a fábrica de farinha mais moderna do Algarve. As últimas freiras deixaram Nossa Senhora da Piedade, o Mosteiro das Bernardas, em 1862, na sequência da extinção das ordens religiosas, e o edifício ficou devoluto durante décadas. Até que, a 17 de dezembro de 1890, um empresário local chamado João Daniel Gil Pessoa propôs à Câmara uma avença anual de 200 mil réis para o fornecimento de "todos os productos de sua industria" a partir do convento extinto. É o registo documental mais antigo da fábrica, e o nome merece uma pausa. João Pessoa era neto do bisavô do poeta Fernando Pessoa.

A sua aventura foi efémera. Em março de 1891 a fábrica ardeu, e nesse mesmo verão uma nova empresa tomou conta do espaço, a Companhia Tavirense de Moagens e Massas a Vapor. O capital era local, 480 ações espalhadas pela cidade, e entre a gente da companhia estavam figuras tavirenses de relevo, entre elas um futuro presidente da Câmara e o tipógrafo da cidade. Em 1900, um único motor a vapor acionava sete casais de mós. Em 1903 havia já duas máquinas a vapor com uma potência conjunta de 125 cavalos, e 22 trabalhadores. Mais importante ainda, ao lado das mós trabalhavam moinhos de cilindros do sistema austro-húngaro, cilindros de aço que moem o grão gradualmente, passagem após passagem, até à farinha branca e peneirada, a farinha espoada. As Bernardas foram pioneiras no Algarve. A pequena moagem da outra margem nunca tocou nessa tecnologia.

A empresa era grande de mais para o seu mercado. Em 1920, todo o ativo foi vendido por 89 contos a Joaquim António Pacheco, de Olhão, e sob o seu nome o complexo cresceu. Em 1928 tinha três licenças, moagem, massas e padaria, e 43 trabalhadores. Em 1931 comprou mais uma padaria na cidade. A fábrica produzia a sua própria eletricidade com um gerador e oferecia aos seus trabalhadores assistência médica própria, para lá do que a lei obrigava.

Nem tudo correu sem atritos. Em 1938, Pacheco quis libertar-se da fábrica e arrendou-a a uma sociedade de Almada, que pretendia transferir a maquinaria e a quota de trigo para a sua grande moagem junto a Lisboa. As autoridades disseram primeiro que sim. Depois surgiu a suspeita de que Pacheco tinha instalado mais moinhos do que a licença permitia, e o negócio caiu. Pacheco mudou de estratégia e, em 1940, trouxe para Tavira a maquinaria e a quota de uma moagem de Ourique. Em 1953, 53 pessoas trabalhavam só na produção de pão, e dez moinhos de cilindros transformavam 128 a 136 toneladas de cereal em cada turno de oito horas.

Contorne o edifício até à fachada da Rua dos Mártires da República. Era por ali que se entrava na moagem, e ali ficavam as moradias dos operários. A chaminé junto à igreja conventual pertence ao mesmo conjunto. A fábrica encerrou em 1968. Hoje o convento é habitação, reconvertido pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura, e precisamente a fachada e a chaminé ficaram de pé, como marca da indústria.

Convento das Bernardas

Capítulo 5

As moagens desnecessárias

Afinal, quão grande era a grande moagem? Em 1901, a Companhia Tavirense tinha capacidade para moer 3.600 toneladas de trigo por ano e moía efetivamente 1.616. A maior moagem do país tinha capacidade para 70.500. Vista de Lisboa, Tavira era um ponto. Vista do Algarve, as Bernardas eram um gigante, em 1936 a segunda maior moagem da província, e em 1957 ainda a segunda do Algarve e a oitava de todo o Portugal a sul do Tejo.

O número de 1936 vem de um documento cujo nome diz tudo sobre o destino do setor, a lista da "Comissão de Classificação das Moagens Consideradas Desnecessárias". Portugal construíra moagens a mais, e o Estado preparava-se para apontar as que podiam ser dispensadas. Na mesma lista consta a pequena moagem da outra margem, a Caiado & C.ª, com maior capacidade do que três outras moagens algarvias, uma delas em Cacela, a apenas 12 quilómetros daqui. Nenhuma das moagens de Tavira foi riscada. Ainda assim, o fim chegou. Em 1968 as Bernardas encerraram, em 1970 a licença foi definitivamente cancelada, e o equipamento da farinha espoada seguiu para Faro. A pequena moagem, paradoxalmente, aguentou mais tempo, até 1975. Tinham passado 85 anos de farinha em Tavira.

As moagens não estavam sozinhas. Quatro fábricas de conservas de peixe laboraram na cidade no mesmo período, a Balsense, A Tavirense, a de José Matos Parreira e a dos irmãos Calça, e o próprio J.A. Pacheco tinha uma fábrica de conservas em Olhão, a par da farinha. Peixe, sal e cereal eram a Tavira industrial.

No início da década de 1950, as duas moagens da cidade davam trabalho a quase 70 pessoas. Hoje, uma é um hotel e a outra é habitação, e o que de mais visível a indústria pôde conservar é uma chaminé junto a uma igreja conventual. Mas agora já sabe o que procurar. A cidade que quase não se industrializou, e que quase esqueceu que chegou a sê-lo.

Fontes

  • FAÍSCA, Carlos Manuel, «Indústria e património industrial moageiro na cidade de Tavira, 1890–1975», FOLIUM – Revista do Arquivo Municipal de Tavira, n.º 1 (2024), pp. 30–45
  • Câmara Municipal de Tavira, FOLIUM – Revista do Arquivo Municipal de Tavira, n.º 1 (2024)
  • TICCIH, Carta de Nizhny Tagil sobre o Património Industrial, 2003
  • SIPA/DGPC: Convento das Bernardas (IPA.00015692), Ponte Antiga sobre o Rio Gilão (IPA.00001294), Mercado Municipal de Tavira / Mercado 30 de Junho (IPA.00010087), Núcleo urbano da cidade de Tavira (IPA.00010025)
  • SANTANA, Daniel, «A história atravessa o rio: a ponte antiga de Tavira (e outras travessias)», in APPLETON, Júlio (coord.), As Travessias do Rio Gilão em Tavira, 2021
  • Hotel Princesa do Gilão, «Sobre nós»
  • Turismo de Tavira, Percursos – Aquém da Ponte
  • ArchDaily, «Convento das Bernardas / Eduardo Souto de Moura» (2015)
  • Adaptação de Flemming Berthelsen, baseada na investigação de Carlos Manuel Faísca
  • Imagens reproduzidas com autorização de Carlos Manuel Faísca; cada legenda indica a instituição de origem e a referência de arquivo

Última revisão: 4 de setembro de 2026