
Farinha, pão e máquinas — a Tavira industrial
Tavira é uma cidade de igrejas — mas durante oitenta e cinco anos duas fábricas moeram a farinha da cidade, atrás do muro de um convento e de uma fachada à beira-rio. Um passeio curto pelas duas pontes, até à pequena moagem que se tornou hotel e à grande que se tornou habitação: a história de porque Tavira nunca chegou a ser uma cidade industrial, e do que as poucas fábricas deixaram. Adaptação de Flemming Berthelsen, baseada na investigação de Carlos Manuel Faísca.
Capítulo 1
A cidade que quase não se industrializou

Olhe à sua volta: torres de igrejas, fachadas conventuais, azulejos. Tavira é tão rica em património religioso e senhorial que essa riqueza acabou por ofuscar um outro tipo de património — o das fábricas, dos mercados, do caminho-de-ferro e das habitações operárias. Este passeio procura a outra Tavira: a cidade que nunca chegou a ser industrial, e as poucas fábricas que vieram mesmo assim.
Portugal industrializou-se tarde e devagar, e os primeiros centros industriais cresceram onde estavam as matérias-primas ou os consumidores — a Covilhã dos lanifícios, Silves da cortiça, as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto. Tavira não era nada disso. Mas a cidade não estava desprovida de indústria: quatro fábricas de conservas de peixe, uma fábrica de gelo, serrações, uma ferraria, uma serralharia mecânica e uma tipografia marcaram as ruas, e em 1930 a população industrial do concelho estava exatamente na média algarvia — nem à frente, nem atrás.
O motor desta história é algo tão terreno como o cereal. O Algarve nunca conseguiu alimentar-se a si próprio. Já na década de 1820 a alfândega registava a importação de trigo e milho, e ao longo de todo o século XIX Tavira comprou cereais alentejanos — as compras de 1849 e de 1903 ainda constam das fontes. Nos campos, o trigo dominou até meados do século XX, quando o milho tomou a dianteira com as novas culturas de regadio, enquanto o centeio quase desapareceu, a par do despovoamento da freguesia serrana de Cachopo, onde se concentravam as suas searas. Mas a colheita nunca chegava: o cereal tinha de vir de fora, sobretudo do Baixo Alentejo — e de ser moído aqui.
Duas fábricas encarregaram-se dessa tarefa: uma pequena, à beira-rio, a poucas centenas de metros daqui, e uma grande, num convento extinto no outro extremo da cidade. Este passeio visita as duas e atravessa o rio duas vezes — ida pela ponte antiga, regresso pela nova.
Capítulo 2
A ponte, a rua e a pequena moagem

A Ponte Romana é a costura desta história: foi por aqui que o cereal entrou na cidade, e é por aqui que atravessa agora para a margem esquerda do Gilão.
A rua que se abre ao fundo da ponte tem a sua própria história. Chamava-se Rua Borda d'Água de Aguiar até que a República, a 7 de novembro de 1910, a rebatizou Rua Jacques Pessoa. Assim se manteve durante 75 anos; no final de 1985, o troço para lá do Largo da Caracolinha retomou a antiga designação. Quando as fontes deste capítulo dizem Rua Jacques Pessoa, falam da atual Rua Borda d'Água de Aguiar.
Uns passos por essa rua abaixo, no número 34, ficava a pequena moagem. A 15 de julho de 1935, a firma Caiado & C.ª — gente da cortiça, que mantinha em Faro uma pequena fábrica de rolhas e pranchas com destino à Alemanha — requereu licença para moer farinha aqui. A licença tinha sido originalmente atribuída à moagem da firma em Sabóia, no concelho de Odemira, mas o ministério autorizou a transferência: pesou a maior dimensão do mercado tavirense, sobretudo a Serra de Tavira, então bastante povoada e considerada um importante centro produtor cerealífero.
O equipamento era modesto e deliberadamente antigo: dois casais de mós — a mesma tecnologia dos moinhos de vento e das azenhas — máquinas de limpeza do grão e um motor "National" de 35 cavalos. Cinco trabalhadores no início, sete pouco depois, e a laboração em marcha por volta de 1936. A moagem produzia farinha em rama, a farinha grosseira de mó de pedra para o pão rural, mais barato; a farinha branca do pão urbano vinha da grande concorrente, na outra margem.
Em 1939, a Caiado & C.ª vendeu todo o ativo à Araújo Ribeiro & Dias, Lda. Em 1942, os novos proprietários compraram uma moagem de milho e centeio que laborava em Lagos e trouxeram a maquinaria para cá — com autorização oficial, justificada pelo milho e centeio do concelho, deficientemente aproveitados. A lei exigia a separação física da moagem de milho e da de trigo: dois edifícios, uma só firma. No seu auge, a fábrica empregava 14 homens, transformava sete toneladas de cereal por turno de oito horas nas mós — e 15 toneladas nos moinhos de martelos — e misturava rações de cevada e alfarroba para o gado. Vieram ainda fornos de pão e uma oficina de serralharia.
Os proprietários mudaram de novo, em 1951 e em 1959, e a moagem continuou a laborar — mesmo depois de a grande concorrente fechar, em 1968. Só em 1975 as máquinas pararam; em julho desse ano, o processo foi encerrado com a informação de que toda a maquinaria fora vendida a um morador de Portimão. Em 1986, o edifício principal abriu como Pensão Princesa do Gilão — hoje hotel com o mesmo nome — e, em 2014, o armazém anexo foi demolido para estacionamento. Vai passar pelo edifício daqui a pouco, a caminho da ponte nova.
Capítulo 3
O que uma cidade recorda

Está de volta à margem direita, diante do antigo mercado à beira-rio. Detenha-se aqui um momento — não apenas pelo edifício, mas pela categoria: mercados, caminho-de-ferro, fábricas, habitações operárias. O património do quotidiano.
A riqueza de Tavira em igrejas, conventos e palácios — na sua maioria classificados como Monumento Nacional ou Imóvel de Interesse Público — tem um reverso: desviou as atenções de tudo o resto. É essa a tese do próprio artigo, e é aqui que ela se cumpre: não é por acaso que uma cidade recorda o que recorda. A moagem que acabou de ver tornou-se hotel em 1986, e a história do próprio hotel menciona a fábrica — mas, no interior, a alusão é reduzida. O conselho internacional do património industrial, o TICCIH, recomenda precisamente a reutilização dos edifícios industriais, desde que a antiga atividade continue a ser invocada. A reutilização salva as paredes; a memória exige mais.
Quanta cidade havia na Tavira industrial lê-se num anúncio do jornal local O Povo Algarvio: J.A. Pacheco — o homem que era dono da grande moagem para onde nos dirigimos — anunciava uma serralharia mecânica, fábrica de moagem e de massas, padaria, secção de automóveis e uma garagem de recolha com capacidade para mais de 100 viaturas, "a mais ampla da Província". Tudo em Tavira, tudo na linguagem dos anos trinta. Só nesta cidade, o grupo empregava cerca de 80 pessoas.
O mercado aqui ao lado é, ele próprio, um exemplo da categoria — e a prova de que a reutilização funciona: sobreviveu porque a cidade lhe encontrou novos usos. Siga agora a margem do rio para sudeste, em direção ao convento e à grande moagem.
Capítulo 4
A grande moagem do convento

O convento à sua frente albergou durante 78 anos a fábrica de farinha mais moderna do Algarve. As últimas freiras deixaram Nossa Senhora da Piedade — o Mosteiro das Bernardas — em 1862, na sequência da extinção das ordens religiosas, e o edifício ficou devoluto durante décadas. Até que, a 17 de dezembro de 1890, um empresário local chamado João Daniel Gil Pessoa propôs à Câmara uma avença anual de 200 mil réis para o fornecimento de "todos os productos de sua industria" a partir do convento extinto. É o registo documental mais antigo da fábrica — e o nome merece uma pausa: João Pessoa era neto do bisavô do poeta Fernando Pessoa.
A sua aventura foi efémera. Em março de 1891 a fábrica ardeu, e nesse mesmo verão uma nova empresa tomou conta do espaço: a Companhia Tavirense de Moagens e Massas a Vapor. O capital era local — 480 ações espalhadas pela cidade — e nos órgãos sociais sentavam-se figuras tavirenses de relevo, entre elas um futuro presidente da Câmara e o tipógrafo da cidade. Em 1900, um único motor a vapor acionava sete casais de mós; em 1903 havia já duas máquinas a vapor com uma potência conjunta de 125 cavalos, e 22 trabalhadores. E, mais importante ainda: ao lado das mós trabalhavam moinhos de cilindros do sistema austro-húngaro — cilindros de aço que moem o grão gradualmente, passagem após passagem, até à farinha branca e peneirada, a farinha espoada. As Bernardas foram pioneiras no Algarve; a pequena moagem da outra margem nunca tocou nessa tecnologia.
A empresa era grande de mais para o seu mercado. Em 1920, todo o ativo foi vendido por 89 contos a Joaquim António Pacheco, de Olhão, e sob o seu nome o complexo cresceu: em 1928, três licenças — moagem, massas e padaria — e 43 trabalhadores; em 1931, a compra de mais uma padaria na cidade. A fábrica produzia a sua própria eletricidade e oferecia aos seus trabalhadores assistência médica própria, para lá do que a lei obrigava. Em 1953, 53 pessoas trabalhavam só na produção de pão, e dez moinhos de cilindros transformavam 128 a 136 toneladas de cereal em cada turno de oito horas.
Contorne o edifício até à fachada da Rua dos Mártires da República: era por ali que se entrava na moagem, e ali ficavam as moradias dos operários. A chaminé junto à igreja conventual pertence ao mesmo conjunto. A fábrica encerrou em 1968; hoje o convento é habitação — mas precisamente a fachada e a chaminé ficaram de pé, como marca da indústria.
Capítulo 5
As moagens desnecessárias
Afinal, quão grande era a grande moagem? Em 1901, a Companhia Tavirense tinha capacidade para moer 3.600 toneladas de trigo por ano e moía efetivamente 1.616 — a maior moagem do país tinha capacidade para 70.500. Vista de Lisboa, Tavira era um ponto. Vista do Algarve, as Bernardas eram um gigante: em 1936, a segunda maior moagem da província; em 1957, ainda a segunda do Algarve e a oitava de todo o sul de Portugal.
O número de 1936 vem de um documento cujo nome diz tudo sobre o destino do setor: a lista da Comissão de Classificação das Moagens Consideradas Desnecessárias. Portugal construíra moagens a mais, e o Estado preparava-se para apontar as que podiam ser dispensadas. As Bernardas sobreviveram à comissão pela sua dimensão; ainda assim, o fim veio de dentro. Em 1968 a fábrica encerrou, em 1970 a licença foi definitivamente cancelada, e o equipamento da farinha espoada seguiu para Faro. A pequena moagem da outra margem, paradoxalmente, aguentou mais tempo — até 1975. Tinham passado 85 anos de farinha em Tavira.
As moagens não estavam sozinhas. Quatro fábricas de conservas de peixe laboraram na cidade no mesmo período — a Balsense, "A Tavirense", a de José Matos Parreira e a dos irmãos Calça — e o próprio J.A. Pacheco tinha uma fábrica de conservas em Olhão, a par da farinha. Peixe, sal e cereal: era esta a Tavira industrial.
No início da década de 1950, as duas moagens da cidade davam trabalho a quase 70 pessoas. Hoje, uma é um hotel e a outra é habitação, e o que de mais visível a indústria pôde conservar é uma chaminé junto a uma igreja conventual. Mas agora já sabe o que procurar: a cidade que quase não se industrializou — e que quase esqueceu que chegou a sê-lo.
Fontes
- FAÍSCA, Carlos Manuel, «Indústria e património industrial moageiro na cidade de Tavira, 1890–1975», FOLIUM – Revista do Arquivo Municipal de Tavira, n.º 1 (2024), pp. 30–45
- Adaptação de Flemming Berthelsen, baseada na investigação de Carlos Manuel Faísca
- Imagens reproduzidas com autorização de Carlos Manuel Faísca; cada legenda indica a instituição de origem e a referência de arquivo
Última revisão: 29 de julho de 2026