O bairro a norte do Gilão: do coreto no jardim, pelas praças, até às ermidas e ao interior dourado da Igreja do Carmo.
Capítulo 1
O Coreto Que Chegou de Barco
O mais antigo jardim público de Tavira abriu em 1890, num terreno que no século XVI servira de estaleiros navais, sob o rei D. Manuel I. A sua peça central — um coreto ornamentado de ferro fundido, da Fundição do Ouro, no Porto — chegou de barco, e no dia da inauguração as multidões terão ficado tão entusiasmadas que os cafés da cidade esgotaram o gelado pela primeira vez.
Desde 1944, o coreto ergue-se rodeado por um lago ornamental, e o jardim continua a ser a sala de estar de Tavira: concertos de domingo, feiras do livro, primeiros encontros e tartarugas a apanhar sol no lago.
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Capítulo 2
O Jardim do Médico
O nome Alagoa — a lagoa — recorda o pântano que outrora aqui existia, onde o Gilão faz a curva. No século XV, a zona fora já absorvida pela expansão de Tavira para lá do rio, e elegantes casas azulejadas dos séculos XVIII e XIX ainda emolduram a praça.
O jardim, esse, é republicano. Em 1915, o presidente da câmara Dr. António Padinha — um médico local que, diz-se, plantou ele próprio a primeira árvore — transformou a praça nua no Jardim da Alagoa. Morreu no ano seguinte, e a praça traz o seu nome desde então.
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Capítulo 3
Simples Como o Altar de São Paulo
Fundada em 1606 para os Eremitas de São Paulo — o seu único convento no Algarve —, esta igreja é um manual do «estilo chão» português: caiada, contida, feita para um culto comunitário e sóbrio. O seu pavimento de tijolo vermelho e ladrilhos cerâmicos espanhóis sobreviveu intacto durante quatro séculos.
Os sete retábulos de madeira nunca foram dourados — o infortúnio e as finanças magras trataram disso —, o que fez nascer o ditado local «simples como o altar de São Paulo». Quando o convento foi extinto em 1834, a Confraria de Nossa Senhora da Ajuda, de leigos, interveio e salvou a igreja.
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Capítulo 4
Mais Antiga do Que a Memória
Quando os visitadores da Ordem de Santiago aqui vieram em 1518, registaram que esta ermida era já «tão antiga que não há memória de quem a construiu». Terá nascido pouco depois da reconquista cristã de 1242, e as sepulturas medievais sob o pavimento e pela praça testemunham séculos de devoção.
O século XVIII remodelou-a em estilo barroco — a torre sineira exibe a data de 1727 — e, depois do terramoto de 1755, quando o Governador do Algarve mudou a sua sede para Tavira, esta humilde ermida serviu de capela privada.
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Capítulo 5
Um Escudo Contra a Peste
São Brás era o curandeiro das gargantas e, no século XV assombrado pela peste, os tavirenses ergueram-lhe esta ermida logo fora das muralhas: um escudo espiritual destinado a intercetar a doença antes que chegasse às ruas. Uma irmandade de leigos cuidava dela e, a cada 3 de fevereiro, as multidões acorriam à Bênção das Gargantas.
O terramoto de 1755 danificou a ermida e, na década de 1760, o mestre pedreiro Diogo Tavares de Ataíde reconstruiu-a, dando-lhe o frontão rococó curvo que hoje se vê. Todo o bairro, o Alto de São Brás, tomou dela o nome.
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Capítulo 6
Ouro Atrás de Um Só Campanário
A igreja do Carmo foi construída por leigos: a Ordem Terceira do Carmo, que garantiu por escritura, em 1737, um terreno junto à Ermida de São Brás e começou a construir em 1744. O bispo D. Inácio de Santa Teresa foi aqui sepultado em 1751, e a fachada — com a sua espadana única em vez de torres gémeas — ficou concluída em 1792.
Lá dentro espera a grande surpresa do passeio: retábulos rococó dourados, pinturas ilusionistas no teto e capelas laterais dedicadas a santos carmelitas. Hoje, a antiga ala conventual acolhe o centro Ciência Viva de Tavira.
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Capítulo 7
Compaixão à Beira-Rio
Esta ermida começou, no final do século XV ou início do XVI, como igreja de uma gafaria — deliberadamente instalada fora da vila e dedicada a São Lázaro, patrono dos excluídos. Quando a lepra declinou, a Irmandade de Nossa Senhora do Livramento, dos pescadores, reconstruiu-a em 1698 e encheu-a de ex-votos pintados de sobrevivência no mar.
No século XIX, a fachada foi inteiramente revestida de azulejos azuis e brancos. Na maior parte dos dias as portas estão fechadas, mas os óculos altos ainda deixam entrever três altares barrocos dourados.