O coreto no meio do jardim é de ferro fundido do Porto. O desenho é de 1888, as peças de ferro chegaram de vapor a Olhão em janeiro de 1890 e fizeram o último troço por terra, e o jardim à sua volta foi inaugurado no fim desse mesmo ano. É o jardim público mais antigo de Tavira, traçado na margem direita do rio junto ao novo mercado, nos anos em que a cidade ganhou também caminho de ferro e margens muradas. A ideia foi do presidente da Câmara José Pires Padinha, e o distrito era contra. Desde 1944 o coreto está dentro de um pequeno lago com peixes e tartarugas, e as palmeiras deram ao jardim o seu outro nome, Jardim das Palmeiras. Venha pelo fado no verão, ou só pela sombra.
Em 1886 o presidente da Câmara, José Pires Padinha, negociante abastado, teve a ideia de que Tavira devia ter um jardim na margem direita do rio. A Junta Geral do Distrito levantou objeções; o arquivo escreve que ele, teimosamente, levou o projeto avante na mesma. O terreno não estava vazio antes. Aqui tinham ficado a Ermida do Loreto e o palácio da família Corte-Real, ambos demolidos, e os arqueólogos consideram provável que as antigas tercenas da cidade se situassem aqui; vestígios de habitação não encontraram. As obras começaram em 1890, e o jardim foi inaugurado no fim do ano.
O coreto é octogonal e foi fundido na Fundição do Ouro, no Porto. O desenho é a tinta da china e está datado de 1888; quem o desenhou, não se sabe. A 11 de janeiro de 1890 a fundição escreveu que o coreto tinha seguido de vapor para Olhão, e a ata da Câmara de 15 de janeiro diz que o resto do caminho foi por terra. 1890 é também o ano em que Fernando Pessoa fez nascer em Tavira o seu heterónimo Álvaro de Campos, e o Arquivo Municipal escreveu em 2016 que "o progresso em Tavira assinalou-se … pela chegada do coreto". Ferro de uma fábrica como sinal do progresso da cidade. É uma leitura honesta.
O primeiro jardim tinha caminhos sinuosos. Por volta de 1913, o ano é uma estimativa, foram substituídos por uma alameda central reta, que só o coreto interrompe. Em 1944 o coreto ganhou um lago à sua volta, com peixes, tartarugas, rochas e plantas. É uma ideia estranha e boa. No mesmo ano inaugurou-se o busto em bronze, de Raul Xavier, do matemático António Cabreira, nascido em Tavira em 1868, nas suas bodas de ouro académicas e com o próprio presente; ele doou a casa onde nasceu ao município, e hoje é o arquivo municipal. Em 1961 juntou-se-lhe o busto, também de Xavier, do poeta e político local Isidoro Manuel Pires.
O jardim é municipal e está sempre aberto; a morada é Rua José Pires Padinha, nome do homem que o quis. O Mercado da Ribeira fica no extremo sul. Repare na planta octogonal e nas linhas suaves do ferro, nas tartarugas do lago, nos dois bustos e na inscrição em memória do músico e poeta Sebastião Leiria. As árvores são tamareiras, palmeiras-das-canárias, choupos-brancos e lódãos. No verão a Câmara organiza no jardim o Fado no Coreto e o baile de verão; a feira do livro e a feira dos ofícios, essas, são na Rua do Cais.
A margem entre a Rua Direita e o rio era o lado de trabalho da cidade, não o seu lado nobre. Capela e palácio senhorial foram demolidos, e na década de 1880 Tavira ganhou em poucos anos caminho de ferro, um mercado novo, margens muradas e depois o jardim. Escavações na Rua José Pires Padinha encontraram camadas de aterro que provavelmente datam da construção do jardim e do muro. Elevou-se a margem e pôs-se um jardim por cima. Mercado e jardim pertencem um ao outro: um para os dias de semana, o outro para o domingo, ambos virados para o rio.
O coreto é o de 1890. O resto é mais recente: a alameda de cerca de 1913, a calçada, o lago de 1944, os bustos. O jardim não está classificado por si só, mas fica dentro do núcleo urbano histórico inventariado. O mais importante é que continua a servir para aquilo para que foi construído. As bandas de música tocaram aqui durante décadas, e no verão há fado no coreto. Um jardim em uso está mais bem conservado do que um que é apenas cuidado.