A pequena ermida na margem esquerda do Gilão é a única em Tavira com azulejos em toda a fachada. É mais antiga do que os azulejos sugerem. A primeira vez que é mencionada é em 1518, quando os visitadores da Ordem de Santiago escreveram que o próprio povo a tinha erguido por devoção. Era dedicada a São Lázaro, o santo a quem se rezava contra a peste. A partir de finais do século XVII, os pescadores e marítimos da cidade adotaram-na sob o nome de Nossa Senhora do Livramento, e nas paredes do interior estão os seus quadros de agradecimento por salvamentos no mar. A ermida está quase sempre fechada, mas pelas duas pequenas janelas da fachada pode espreitar-se para dentro.
A ermida fica onde começou o povoamento da margem esquerda, junto à antiga via de entrada vinda de leste. A rua chamava-se Rua de São Lázaro, por causa da ermida, até passar a ser a Rua Almirante Cândido dos Reis. O guia da Câmara data-a do século XV, com um ponto de interrogação. O documento mais antigo é uma visitação da Ordem de Santiago, de 1518, que escreve que a ermida "foi erguida pelo povo por devoção". Nenhum fundador, nenhum fidalgo, nenhuma ordem. O padroeiro era São Lázaro, invocado contra a peste e as epidemias.
Toda a gente o conta: a ermida pertencia a um hospital de leprosos na periferia da vila. O historiador Marco Sousa Santos, que escreveu a monografia da ermida em 2018, não encontra um único documento por trás da afirmação. Segue-lhe o rasto até um religioso do início do século XVIII, Frei Agostinho de Santa Maria, que dificilmente teria estado em Tavira. E a localização encaixa mal; os hospitais de leprosos ficavam o mais afastado possível da povoação, ao passo que a ermida fica mesmo em frente do núcleo urbano. Santos vê-a antes como uma de três ermidas contra a peste em redor da cidade, juntamente com São Sebastião e São Roque. Menos comovente, mas condiz com o mapa.
A partir de finais do século XVII, a ermida era conhecida como Nossa Senhora do Livramento, culto promovido sobretudo pelos marítimos. Foi reconstruída em 1698, quando eram os pescadores quem a frequentava. No início do século XVIII, um grupo deles fundou uma confraria, que acabou por tomar posse da ermida. São Lázaro ficou, porém, no altar-mor. A fachada é da mesma época, com o ano de 1715 gravado na verga do portal; os azulejos que a cobrem toda são do século XIX. No interior, tudo é abobadado, e há três retábulos do século XVIII. A imagem de madeira da Senhora terá sido, segundo a tradição, encontrada no mar.
Nas paredes estão os ex-votos, pequenas pinturas sobre madeira, oferecidas por marítimos que escaparam com vida a uma tempestade. As inscrições são concretas: "O Lagarto" ao largo da Arrifana em janeiro de 1822, "Sacramento e Conceição" de Málaga em 1837, a barca "S. João Baptista", naufragada ao largo de Quarteira em 1876, o hiate "Maria da Paz" de Oran no Cabo da Gata em 1877, a barca "Flôr de Maio" na barra de Portimão em 1905. Lorenzo Gasperoni, que escreveu sobre eles, vê embarcações "lutando com as ondas de mares ferozes e enfurecidos ... São cenas aterradoras!" São os únicos milagres que a própria ermida documenta.
A ermida está normalmente fechada. A fachada tem duas pequenas janelas, abertas para arejar, e por elas consegue ver-se os altares lá dentro. Com alguma sorte, a porta está aberta. O museu municipal faz visitas guiadas ocasionais na série "Passeios na História de Tavira", a última em dezembro de 2025, com Marco Sousa Santos como guia. Não a confunda com a ermida do mesmo nome na Luz de Tavira, de 1708.
A ermida fica junto à antiga estrada de entrada em Tavira vinda de leste, mesmo em frente da vila medieval, do outro lado do rio. Foi um dos primeiros pontos da margem esquerda a ser construído, e a rua tomou-lhe o nome. Não é uma periferia em nenhum sentido dramático. É precisamente isso que enfraquece a história do hospital de leprosos e reforça a leitura da ermida como uma de três ermidas contra a peste em redor da cidade, juntamente com São Sebastião e São Roque.
Um pequeno edifício de uma só nave, com a casa do ermitão ao lado, uma fachada de 1715 sob os azulejos do século XIX, três retábulos do século XVIII e as imagens dos dois padroeiros. Existem também os restos de um painel de azulejos figurativos do século XVIII, que esteve colocado num nicho exterior. A ermida não está classificada, tanto quanto as fontes mostram, mas a Câmara inclui-a no seu guia de igrejas, e o museu usa-a para visitas guiadas. A maior parte do que se julga saber sobre o lugar vem de um único livro de 80 páginas. Vale a pena lê-lo antes de repetir a lenda.