Cacela Velha são cerca de 50 habitantes, uma igreja, uma fortaleza e algumas casas brancas numa arriba sobre a barra mais oriental da Ria Formosa. A aldeia fica a leste de Tavira, no concelho de Vila Real de Santo António, e as ruas não têm nomes nem números de porta. Já foi mais do que isso. Sob os mouros o lugar chamava-se Qastalla Darraj e era sede de um distrito; o geógrafo al-Idrīsī chamou-lhe no século XII uma fortaleza à beira-mar, bem povoada e com muitas hortas e campos de figueiras. Depois a vila teve o seu próprio foral, o seu próprio comendador e a sua própria casa da câmara, e voltou a perder tudo. Só nunca foi remodelada. É por isso que vale a pena ir até lá.
Nas fontes árabes o lugar chama-se Qastalla Darraj, a partir do século X sede de um distrito na província de Ossónoba. al-Idrīsī escreveu no início do século XII sobre "uma fortaleza construída à beira-mar", bem povoada, com hortas e campos de figueiras. O castelo era quadrado, com cerca de 40 metros de lado, e em 1168 a base dos almóadas para a conquista de Tavira. As escavações dirigidas por Cristina Garcia encontraram a cidade: a leste da aldeia um bairro habitacional do século XIII ao longo de uma rua com esgoto, e junto ao largo da fortaleza provavelmente a casa do juiz e cinco silos de cereais. A casa foi arrasada na conquista cristã.
Em 1240 Sancho II tomou Cacela e deu-a à Ordem de Santiago e a Paio Peres Correia. Os mouros retomaram-na, e Correia conquistou-a de novo em 1242. D. Dinis deu foral à vila em 1283. Outra versão, a de Magalhães de 2012, diz que os almóadas de Silves trocaram Cacela por Estômbar e Alvor em 1238. A vila nunca cresceu muito. Em 1465 não havia casas fora do castelo, onde vivia o comendador, e em 1548 este escreveu ao rei que corsários mouros se dirigiam para a costa e pediu licença para manter vigia na costa.
A igreja de Nossa Senhora da Assunção tem um núcleo de meados do século XIII, mas o único elemento visível dessa época é o portal norte, de arco quebrado. O resto é uma reconstrução renascentista de 1518, atribuída a André Pilarte: três naves, colunas com capitéis de bolas e um portal com bustos de São Pedro e São Paulo. A fortaleza é do tempo de D. João III e de D. Sebastião; em 1565 era quadrada, com uma torre em cada canto. Em 1617 o engenheiro Massai encontrou o castelo em ruína e a vila sem moradores e propôs desmanchá-lo e extinguir a vila.
A 1 de novembro de 1755 ruíram a igreja, a Misericórdia e a casa da câmara, e os baluartes da fortaleza caíram com tanta violência que os canhões foram parar à praia, escreve um relato da época. Em 1770 o governador D. Rodrigo de Noronha mandou reconstruir a fortaleza com um farol, concluído em 1794; a planta é quadrada, com dois meios-baluartes virados ao mar, e não em estrela, como tantas vezes se lê. O bispo Avelar mandou reparar a igreja por volta de 1795. Em 1774 ou 1775 o concelho de Cacela foi extinto a favor da recém-fundada Vila Real de Santo António. Classificada em 1996.
A fortaleza é habitada e está fechada ao público. A igreja reabriu em agosto de 2010; procure o portal gótico do lado norte e os bustos de São Pedro e São Paulo no portal principal. Sobre a porta da fortaleza está a inscrição de 1794. O poema "A conquista de Cacela" de Sophia de Mello Breyner Andresen, de 1962, está em azulejo na aldeia. A cisterna do largo assenta em paredes de casas do século XIV. Em julho realiza-se o festival Noites da Moura Encantada, que deve o nome às lendas das mouras encantadas.
A arriba ergue-se 26 metros acima da barra mais oriental da Ria Formosa, ou 67, conforme a ficha de classificação que se leia, e daqui vê-se tudo o que entra e sai. Daí a sede de distrito sob os mouros e a base dos almóadas contra Tavira em 1168, e daí uma nova fortaleza no século XVI, quando os corsários mouros rondavam a costa. Sempre que a ameaça desaparecia, desaparecia a razão para viver aqui. Despovoada em 1465, sem moradores em 1617, o concelho extinto em 1775. Um posto de vigia que ficou dispensável várias vezes.
A malha de ruas da Idade Média e do século XVI está preservada, diz a ficha de classificação, e é nela que se anda. A fortaleza de 1770-94 é habitada e está fechada. A igreja é de 1518, com uma porta gótica do lado norte. Debaixo do chão está a cidade islâmica. Cacela Velha não foi restaurada para turistas. Simplesmente não foi remodelada desde o século XVIII, e a diferença vê-se, sobretudo para quem vem de Vila Real de Santo António, a vila que lhe levou a câmara.