Tavira
Balsense
A fábrica de conservas de 1917, a maior da cidade, fechada em 1971; hoje restaurante e discoteca.

Períodos
Etiquetas
Horário
Visível apenas do exterior O edifício não está aberto ao público – o local aprecia-se do exterior.
Introdução
O edifício comprido, baixo e caiado de branco junto à rotunda, à saída da cidade, é a antiga fábrica de conservas de Tavira. A Companhia de Conservas Balsense abriu aqui a 9 de maio de 1917, num terreno que em parte tinha sido a lixeira do município, e foi desde o início a maior da cidade, com capacidade para 30.240 caixas. O nome herdou-o da companhia de pesca do atum cujos acionistas pagaram. Em 1971 fechou com um subsídio do Estado criado precisamente para isso. Desde 2008 há concertos no pavilhão, e hoje há ali uma discoteca e bares. A fábrica irmã, a Tavirense, ficava mesmo em frente, na outra margem. É o que resta da industrialização de Tavira, e ela durou pouco.
Destaques históricos
A cidade que queria uma fábrica
Em novembro de 1911 o presidente da câmara António Padinha pôs a indústria conserveira entre as prioridades da cidade. O problema era concreto. O atum de Tavira era descarregado em Vila Real de Santo António. Em 1915 um marítimo suspirou a um jornalista de A Capital que a cidade sairia fortalecida se ao menos uma fábrica de conservas estivesse aqui. Em agosto do mesmo ano O Povo do Algarve noticiou que os acionistas da companhia de pesca do atum Companhia de Pescarias Balsense tinham subscrito 50.000 escudos para uma fábrica. Padinha morreu em novembro de 1916 e não a viu abrir.
Quatro fábricas em dois anos
A Balsense foi inaugurada a 9 de maio de 1917, e a Tavirense seguiu-se em junho na margem oposta, apenas com o rio de permeio. Com as duas pequenas de 1915, Tavira tinha agora quatro. Segundo Vieira Rodrigues, as duas grandes tinham 185 operários em 1917, e a Balsense podia embalar 30.240 caixas. As marcas chamavam-se Balsa, Dom Paio Peres Correia, Paisagem e Whilk. O atum vinha das armações da própria companhia, Livramento e Abóbora, apoiadas de terra junto à fábrica. Carlos Faísca mostrou que a população industrial do concelho em 1930 estava na média algarvia.
Atum para Itália
Temporais destruíram os quatro arraiais de atum da cidade em 1931, 1941, 1952 e 1962. Em 1955 a direção escreveu que a exportação se tinha tornado difícil e que a Itália era o único mercado para as conservas de atum, com um só importador. Em 1971 a Balsense fechou com um subsídio do Estado destinado a incentivar o encerramento de conserveiras em dificuldades; no ano seguinte fechou o Arraial Ferreira Neto, que tinha tido a fábrica como grande cliente. Os números são de Carlos Faísca, e o seu quadro mais largo faz parte da história: em 1917 o Algarve tinha 184 fábricas de conservas com 14.500 trabalhadores, metade das do país; em 1987 a quota era de 15 por cento.
Concertos, discoteca, sushi
Em julho de 2008 Rosa Passos cantou aqui, o primeiro concerto que os jornais referem. Em 2017 abriu a discoteca ECHO, em 2018 o restaurante de sushi Daiya, e em agosto de 2026 o lounge bar GUÄVA, cujos donos, segundo o Postal do Algarve, querem dar nova vida ao lugar, não recuperar o passado. O edifício não está classificado nem inventariado. Um bar num pavilhão fabril não é preservação, mas o pavilhão está de pé, e poucos estão.
Na prática
A câmara chama ao lugar Rotunda da Balsense; na cidade diz-se rotunda da BP. O edifício vê-se melhor do lado do rio, com a antiga Tavirense na outra margem. Lá dentro entra-se à noite, pela discoteca e pelos bares. Mesmo ao lado ficava o moinho de maré Moinho da Forca, que já em 2008 se estava a desfazer.
Cronologia e contexto
Cronologia
- 1911 António Padinha põe a indústria conserveira na lista das prioridades da cidade.
- Agosto de 1915 Os acionistas da Companhia de Pescarias Balsense subscrevem 50.000 escudos para uma fábrica.
- Novembro de 1915 A pequena Fábrica Gilão abre com 30 a 40 mulheres; a Santa Maria no mesmo ano.
- 9 de maio de 1917 A Balsense é inaugurada; a Tavirense segue-se em junho na margem oposta.
- 1917 As duas grandes fábricas têm 185 operários; a Balsense pode embalar 30.240 caixas.
- 1941 Ciclone a 15 de fevereiro; o telhado da fábrica terá abatido.
- 1943 O relatório de contas mostra fabrico próprio de latas e instalação elétrica.
- 1955 A Itália é o único mercado para as conservas de atum, com um só importador.
- 1971 A fábrica fecha com um subsídio do Estado para o encerramento de conserveiras em dificuldades.
- 2008 Concerto de Rosa Passos no pavilhão.
- 2011 Parte do telhado terá abatido depois de um temporal.
- 2017-18 Abrem a discoteca ECHO e o restaurante Daiya.
- 2026 O lounge bar GUÄVA abre em agosto.
Porque fica aqui
Um terreno junto ao Forte do Rato foi abandonado a favor de terras à saída para Vila Real de Santo António, do lado direito da estrada, junto ao rio. Parte delas era a lixeira do município, dificilmente o terreno mais caro da cidade, e a pesca do atum no Livramento e na Abóbora podia ser apoiada de terra mesmo aqui. A Tavirense seguiu a mesma lógica na outra margem. O catálogo do museu chama ao período industrialização tardia e breve, 1884 a 1917: salinas, moinho, caminho de ferro e duas fábricas de atum.
O que resta
O edifício comprido e branco com telhado de telha e janelas pequenas, como na fotografia do catálogo de 2008. Nenhuma classificação. Jorge Queiroz escreve no catálogo que os dois edifícios fabris permanecem visíveis como marcas da indústria das pescas do século XX, e marcas é a palavra certa. A Tavirense vai ser hotel, a Balsense é discoteca. É um destino mais honesto do que um museu seria. A fábrica foi construída para ganhar dinheiro, e continua a ganhá-lo.